quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Retratos a Pedra Negra

"Definido o alvo, atirei-me à tarefa de retratar cerca de quarenta pessoas em cinco meses. Dentro do possível, quase todas as pessoas envolvidas no projecto "Identidades", 16 delas (um grupo de moçambicanos e brasileiros que estiveram no Porto no âmbito do referido projecto) desenhei em três dias. Ao quarto, descansei.
Alla prima.
Na grande maioria das exposições de desenho, os trabalhos expostos resultam de uma selecção que, certamente obedece a diferentes critérios, porventura, de diferentes pessoas. Aqui, para meu infortúnio não há critério. Não houve segunda tentativa nem retoques de aperfeiçoamento fora do tempo de pose (que podia variar entre os 30 e 50 minutos). O que se pode ver nesta exposição é, mesmo, "desenho a metro".
O formato, as dimensões do papel, o material riscador, o cadeirão foram as constantes.
As poses, os enquadramentos, as diferentes distâncias a que me coloquei dos modelos, o posicionamento da folha, vertical ou horizontal, foram as variantes de desenho com as quais me debati, em torno daquilo que se pode designar "aspectos de composição".
A grande maioria das pessoas representadas, conheci-as pela primeira vez, no momento. Não houve estudos prévios, fotografias nem recurso a qualquer instrumento de rigor, como câmara escura.
Uma vez cordialmente cumprimentado, o futuro retratado era instalado no cadeirão. A ser estudada, a pose não o foi por mim. A partir desse momento, apenas em breves minutos ou segundos, tomo algumas decisões determinantes para o resultado final.
Conversas com o modelo: muito poucas."

Ricardo Leite






















terça-feira, 24 de novembro de 2009

RETRATOS A PEDRA NEGRA - Ricardo Leite



inaugura a 1 de Dezembro 18h
ESPAÇO GESTO - rua Cândido dos Reis, 64 Porto

RETRATOS A PEDRA NEGRA
Na verdade, de há uns anos para cá, não tenho feito outra coisa (à parte pintar cinzeiros, cactos, algumas flores, cadeiras e macacos de peluche). Porém, embora reconheça que pintar retratos me retira, merecidamente, a possibilidade de ser conotado como criativo e interessante, não me atormenta a ideia de retratar pessoas até ao fim da minha vida.               
“… e quando tiver cento e dez anos tudo o que fizer, seja um ponto ou uma linha, estará pleno de vida”, palavras do velho mestre Hokusai. Não prometo o mesmo.
Alla prima
Na grande maioria das exposições de desenho, os trabalhos expostos resultam de uma selecção, que, certamente, obedece a diferentes critérios, porventura, de diferentes pessoas.
Aqui, para meu infortúnio não há critério. Não houve segunda tentativa nem retoques de aperfeiçoamento fora do tempo de pose (que podia variar entre os 30 e os 50 minutos). O que se pode ver nesta exposição é, mesmo, “desenho a metro”. 
O formato, as dimensões do papel, o material riscador, o cadeirão foram as constantes.
As poses, os enquadramentos, as diferentes distâncias a que me coloquei dos modelos, o posicionamento da folha, vertical ou horizontal, foram as variantes de desenho com as quais me debati, em torno daquilo que se pode designar “aspectos da composição”.
Parecido, parecido, não está!
O ponto onde a prática do desenho de retrato ao natural se distingue de outras formas de representação - excepto da pintura - é, a meu ver, o tempo.
A consonância entre os tempos das duas pessoas envolvidas nesta situação é flagrante.
Poderia formular o problema deste modo: ambas estão a ser em simultâneo. A imobilidade do retratado é aparente.
Ao decorrer dos minutos a anatomia reage, ainda que milimetricamente: os músculos relaxam ou contraem, na procura de minimizar desconfortos físicos que não se revelaram inicialmente; o rosto, como veículo privilegiado da expressividade psicológica, mostra-a fisicamente exposta.
À linha que, num preciso momento, tenta captar uma determinada configuração, acumular-se-ão outras linhas que, minutos ou segundos depois, encontram outras configurações. Poder-se-á dizer que as linhas, perseguem os vários momentos da pessoa retratada ao longo da sessão.
Daí que convém sempre dar uma vista de olhos aos desenhos do primo, do filho do amigo ou do neto que, “ainda em pequenino, sempre teve muito jeito para fazer a cara das pessoas e que as fazia mesmo parecidas”.


Ricardo Leite

Nasceu no Porto em Setembro de 1970.
Licenciou-se em Artes Plásticas- Pintura em 1999 na FBAUP, tendo estado o último ano do curso em Salford (Reino Unido) ao abrigo do programa Erasmus.
Em 2000 é o vencedor do primeiro prémio de pintura Arte Jovem de Penafiel e no mesmo ano tem um trabalho exposto na National Portrait Gallery em Londres no âmbito do prémio anual BP Portrait Award.
Em 2006 ganha o Prémio Revelação de Pintura da Caixa geral de depósitos/Centro Nacional de Cultura.
De 2000 a 2009 desempenhou funções de docente de desenho e pintura na Escola Superior Artística do Porto.
É o formador responsável pelo Curso Livre de Desenho na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto desde 2006.
Leciona na Escola de Experiências Artísticas Nextart em Lisboa e é actualmente assistente estagiário na disciplina de Desenho na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. 
   
www.ricardo-leite.net

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

OS OSSOS DE QUE É FEITA A PEDRA - Visões Úteis



inaugura a 31 de Outubro 23h

ESPAÇO GESTO - rua Cândido dos Reis, 64 Porto

OS OSSOS DE QUE É FEITA A PEDRA
Aos primeiros raios de sol, o homem riscou na terra um quadrado perfeito e começou a escavar. Moveu pedras e terra com a obstinação de uma missão que lhe tivesse sido destinada, ou de uma maldição que não pudesse contornar. Rasgou com a pá o chão como se, ao fazê-lo, ele próprio entrasse no solo, imergindo por estratos de matéria repisada. Escavava e continuava a escavar, movia o peso de mil anos em cada grão de terra, reconstruía uma genealogia em cada investida do metal contra o chão. Contava os ossos de que é feita cada pedra, revelava o aglomerado de gente concentrada nesse pó.
E a cada movimento, o homem ia devolvendo ao sol o chão, revolvendo os corpos, as suas palavras, para finalmente as descobrir à luz.
O homem escavou e continuou a escavar: reconstruía a sua casa.

“Os ossos de que é feita é pedra” é um audio-walk criado em 2009 pelo Visões Úteis a convite da Fundación Cidade da Cultura e da Xunta de Galicia para as instalações da Cidade da Cultura em Santiago de Compostela. A Dramaturgia e Direcção são de Ana Vitorino, Carlos Costa e Catarina Martins. A Paisagem Sonora e Engenharia de Som de João Martins. A Intervenção Plástica de Inês de Carvalho. A Interpretação, entre outros, de José Barato, María Bouzas e Rocío González. E a Colaboração na Dramaturgia de Nuno Casimiro.

Sintam uma obra-prima feita com pedaços de lua roubados aos americanos. Guerras feias se travaram para a conseguir e agora aqui está, para os mais audazes. Para os mais afortunados. Esta obra genial é capaz das maiores proezas: basta que a tenham convosco. A peça que os reis quiseram ter e não puderam. Só há dez exemplares no mundo! Como é possível esta fantástica máquina de guardar momentos, meus senhores? Porque é um objecto especial. Feito de lua e de fibras raras, trabalhadas no monte mais alto do Ceilão. Sabe onde fica o Ceilão, minha senhora?
Não sabe, pois não? Fica longe, muito longe. Por baixo desta capa colorida, está uma massa rara, feita das mais mágicas pedras, a única peça feita com pedaços do xaile onde Maria Madalena chorou! Pois é, senhoras e senhores, o venturoso que a possuir pode conservar aqui os momentos mais felizes que já viveu. Não, não é um gravador de sons. Não serve para ouvir de novo as palavras. Serve para viver de novo a felicidade. Sim, que esta máquina só conserva momentos felizes: o dia em que o sol se pôs mais tarde, o momento em que. a sua senhora sorriu um pouco mais. Não há coisa igual no mundo. Cheguem-se, cheguem-se! Quem vai ser o felizardo?


Visões Úteis

O Visões Úteis (Porto, 1994) é um projecto artístico, de raizteatral, que se produz a si próprio, um projecto pluridisciplinar, marcadamente de autor e consciente da sua responsabilidade social e política para com as comunidades envolventes.
Nos últimos anos as dramaturgias originais dos seus responsáveis artísticos ganharam especial relevo e o projecto alargou-se a trabalhos sobre a paisagem urbana que têm conhecido uma progressiva internacionalização.
Desde sempre o projecto estético cresceu em sintonia com um forte sentido ético, numa constante reflexão acerca do sentido contemporâneo de fazer arte e teatro, que quotidianamente marca as opções de trabalho.
A Direcção Artística é de Ana Vitorino, Carlos Costa e Catarina Martins.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CADERNO DIÁRIO - Alcina Manuela Carneiro


1 de Outubro 18h
ESPAÇO GESTO - rua Cândido dos Reis, 64 Porto

CADERNO DIÁRIO
De preferência A5, quase sempre quadriculados e de capa mole. Escolhidos a dedo numa papelaria qualquer, são comprados, numerados e aguardam em cima do estirador até lhes ser dado uso.
Do desenho tudo. Diário, permanente e compulsivo. Desde palavras, frases ditas ou pensadas, a esquemas que comunicam uma ideia, ideias que se constrõem e se tornam projectos. Da repetição consecutiva de formas, surgem símbolos, com significados preciosos, um código pessoal.
Virada a última página, não é suficiente guardá-los numa gaveta. As páginas são novamente viradas e reviradas várias vezes, até cada caderno ser desconstruído e se tornar um outro objecto. O caderno que se molda desde o ínicio às necessidades do dia-a-dia, molda-se perante o desejo de o reinventar.
Construir para destruir. Destruir para transformar. Repetir.

Alcina Manuela Carneiro
Licenciada em Artes Plásticas- Escultura no ano
de 2006, pela FBAUP.
Em 2004 inicia a sua parceria com a editora
discográfica Bor Land, na elaboração de capas
das edições e packagings manuais para CD
promos.
Desde 2006 desenvolve o projecto de arte portátil
DE.FEITO, elaboração de objectos/acessórios a
partir de ilustrações.
Cria para o designer de moda, Ricardo Andrez,
ilustrações para tecidos e recentemente objectos
escultóricos para a apresentação das colecções
em passerele, (p)Layers A/W09 - Moda Fad/Low
Cost Barcelona e DREAMERS S/S10 Cibeles
Madrid fashion week.
Neste momento encontra-se a frequentar o
Mestrado de Desenho e Práticas de Impressão
na FBAUP e desenvolve o seu projecto Caderno
Diário.
Vive e trabalha no Porto